CINEMA E HISTÓRIA

Cinema e História, arte, produção cultural, filmes com temáticas historicas, guia de cinema, obra cultural, usos da imagem, fotografia, clássicos do cinema, épicos.

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quinta-feira, 14 de abril de 2011

ENTREVISTA NO JÔ







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Alexandre Ayub Stephanou é jornalista e doutor em História, pesquisador e professor. Especialista em Censura e Produção Cultural, O que é Censura (2006). Trabalha no Colégio Anchieta, na Unisinos Educação Continuada e em cursinhos preparatórios, como Ativação Pré-Vestibular.
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INTRODUÇÃO: HISTÓRIA E CINEMA, CIÊNCIA E ARTE

Introdução: História e Cinema, Ciência e Arte Cinema e História: Guia de filmes tem como objetivo principal compartilhar a paixão pelo conhecimento histórico e pela produção cinematográfica. A idéia central do livro é despertar no leitor um sentimento lúdico, aguçar o seu olhar, sua compreensão histórica, para que ele possa usufruir a herança cultural acumulada pela humanidade. Além disso, objetiva contextualizar uma produção de filmes com temática histórica que seja significativa e crítica. A História fornecendo saberes e instrumentação para permitir o desfrute do cinema como um produto cultural. A História é a mais humana das ciências humanas, pois trata da trajetória do homem, das suas épocas, dos seus costumes, da sua produção cultural, das suas relações sociais, das suas guerras, de como sobreviveu em cada época. A palavra história deriva de um verbo grego que significava explorar, descobrir e “a primeira historiografia era, antes de tudo, uma exposição de descobrimentos sobre terras e povos estranhos”. [1] Atualmente, a História é compreendida como o estudo científico das vivências humanas em épocas passadas e em diferentes sociedades. Ao ser humano nada sensibiliza mais do que a condição humana, como lembra o escritor Luis Fernando Veríssimo, escrevendo sobre a corrida espacial durante o período da Guerra Fria: “A última grande aventura humana foi aquela descida na lua, quando os americanos entenderam que um homem podia não fazer melhor que uma máquina mas tinha uma cara e um nome, o que tornava o feito mais dramático, ninguém se identifica com uma sonda”. [2] A História estuda a obra dos homens no tempo O historiador é o único profissional que não tem a sua frente o seu objeto de trabalho: o biólogo disseca um inseto, o médico opera um paciente, o dentista obtura um dente; o historiador não tem como entrevistar um faraó do antigo Egito ou um cruzado medieval. Ele necessita das fontes históricas, daquilo que o homem produziu no passado e que chegou até os dias de hoje para tentar compreender a sociedade a qual estuda, mas que não presenciou. E como as fontes – documentos, imagens – e sua interpretação são a essência do trabalho do historiador, esse se torna um especialista na análise da produção material da cultura. A História trabalha com o humano e exige sensibilidade diante das fontes primárias e do conhecimento histórico acumulado. O historiador deve transitar entre o pensamento de um iluminista francês do século XVIII e de um militar romano do século I; ter a capacidade de assimilar o passado – a cultura da sociedade em que nascemos – de modo a poder usá-lo no futuro. A história permite um desfrute mais rico da nossa temporalidade. “O tempo é a grande arte do homem”, dizia Napoleão Bonaparte. Estabelecer esse diálogo entre presente e passado é a função da historiografia, pois vivemos concomitantemente três tempos: o tempo da natureza, o tempo da sociedade e o tempo vivido – o “nosso” tempo. O tempo da natureza é de 15 milhões de anos, o dia e a noite, o frio e o calor. O tempo da sociedade é o tempo histórico, nascido das relações sociais, políticas e econômicas, na verdade, é uma convenção, feito de regras, códigos, calendários e práticas. O tempo por nós vivido é feito de percepções, sentimentos, da nossa articulação com as pessoas. Na prática, o tempo é uma sensação que experimentamos diariamente: o tempo do “relógio”, o tempo sistematizado, o tempo medição. O tempo, ou o passar do tempo, é a “pedra de toque” do historiador e temática constante da arte. A forma mais concreta de sentir a passagem do tempo é perceber que algo mudou ou permaneceu do passado no presente, pois vivemos no presente, mas sabemos que outros tempos ocorreram no passado, com características diferentes. A história estuda esses outros tempos. Quando ocorre uma mudança significativa na sociedade ocorre o início de um novo tempo histórico. O intervalo entre uma mudança e outra é o que chamamos de processo histórico. Segundo uma teoria própria, acredito que todas as pessoas gostam de historia, apenas algumas ainda não sabem disso. Quem não gosta de olhar fotos pessoais antigas, reencontrar amigos ou falar mau de um ex-namorado? Esse é o passado que a pessoa reconhece, o passado que mexe com suas emoções, o “seu passado”. Se essa mesma pessoa pudesse conhecer o passado da humanidade como conhece o seu, ela também se reconheceria nesse passado. Só podemos amar aquilo que conhecemos. Como humanidade, nós temos um passado, se não conhecemos esse passado, não poderemos agir de acordo com ele, de acordo com a nossa “carga de humanidade”, teremos dificuldade de nos deslocar por assuntos, épocas e costumes, seremos pessoas limitadas. A história da humanidade é a nossa história também, pois somos seres humanos e ao adquirimos conhecimentos sobre essa trajetória poderemos refletir melhor sobre quem somos e não ficaremos como um participante do Big Brother: sem passado, sem futuro e sem conteúdo. Através do estudo da História podemos nos aproximar da compreensão mais integral do que nos cerca e de nós mesmos. Atualmente, as mudanças ocorrem de forma muito rápida, o tempo “passa mais depressa”. Nos séculos anteriores, as mudanças ocorriam mais lentas, causando a impressão de que o tempo passava mais devagar. Para cada civilização e cultura, há uma noção de tempo. Em uma cidade pequena, temos a impressão de um tempo quase imóvel, pois não há muitas opções de cultura e lazer, os deslocamentos são mais rápidos e não conhecemos muitas pessoas ao longo da vida. As populações dessas cidades não aumentam com o passar dos anos e a impressão que temos é de que o tempo “parou” nesses lugares. O compositor Tom Zé falando de sua terra natal – Irará, no interior da Bahia – descreve que lá “o tempo era um personagem preguiçoso, avesso a mudar de roupa”. [3] Em uma metrópole, temos a impressão de que o tempo passa mais depressa, o trabalho estressante, a rotina corrida, os engarrafamentos, a vida noturna, as infinitas opções, as refeições ligeiras, as filas, a dificuldade de achar vaga para estacionar, parece que estamos sempre atrasados e com pouco tempo. Atemporal, porém, é a necessidade do ser humano registrar o seu tempo, a sua época, os costumes da sua aldeia ou metrópole. A preocupação em registrar os acontecimentos da vida social, – aquele fato que alguém achou importante e fixou em um texto ou desenho e que os historiadores chamam de fato histórico – é tão antiga quanto o homem que já desenhava nas paredes das cavernas, registrando a prática da caça ou rituais místicos. E foi justamente quando o homem pré-histórico desenhou pela primeira vez na parede de uma caverna que, sem saber, ele criou um negócio chamado humanidade, pois naquele momento fomos de fato humanos pela primeira vez. Segundo o crítico de arte argentino Alberto Manguel, as “figuras de antílopes e de mamutes, de homens a correr e de mulheres férteis” serviam “para assinalar nossa presença, para preencher um espaço vazio, para comunicar uma memória ou um aviso”. [4] Nessa mesma linha de pensamento, o poeta e ensaísta Ferreira Gullar afirma que a obra de arte é “um ser novo que o homem acrescenta ao mundo material, para torná-lo mais humano”. O crítico de arte Frederico Morais, completando esse debate imaginário, defende que “a arte é individual como criação e plural como significado”. [5] A arte possui um sentido/objetivo na sua criação/existência, acrescenta algo ao humano e é uma forma de sociabilidade compartilhada. O homem do passado registrou os acontecimentos que julgava mais importantes e por meio desses registros – as fontes históricas – é possível reconstruir a história de uma cultura, de uma civilização ou de um grupo. Fotografias, documentos, quadros, músicas, sons, filmes, jornais, monumentos, permitem o conhecimento sobre o período em que foram feitos, são produtos de sua época. O historiador busca conhecer o passado para torná-lo vivo, compreender e diferenciar os períodos históricos, através de suas características peculiares, para situar-se no mundo atual, a partir da percepção de permanências e rupturas do presente. Nós, humanos, nos apropriamos do mundo e nos situamos nele através – e essa é a única maneira possível - de símbolos, representações e mitos. A História é uma forma de compreender esses símbolos, representações e mitos. Sendo a arte o habitat natural dos signos e o sentido mágico que os homens deram para eles, nada mais rico do que estudar História através da arte. A História busca compreender como os seres humanos viveram no passado, reconstituindo a forma de organização de uma sociedade que não existe mais. O humano através do tempo. Mesmo que se apresente como uma narração objetiva de fatos concretos, a História é carregada de subjetividades do autor, da época e da situação em que o estudo foi gerado. Mesmo que a arte se apresente como narração ficcional, ela é carregada da realidade do autor, da época e da situação específica de sua criação. A arte é uma mentira que ajuda a compreender a verdade, como afirmava o diretor norte-americano Orson Welles. A combinação de ambos, História e Arte, é explosiva e prazerosa, pois a História pode emprestar significação a um produto cultural, como um filme, descortinar o encanto e a beleza das expressões culturais, auxiliar na analise crítica e na decifração de signos e códigos. Sendo o cinema uma das expressões mais ricas da arte, em que “a estética, o lazer, a ideologia e os valores sociais mais amplos são sintetizados numa mesma obra de arte”, é normal que a História se debruce sobre essa forma de expressão. [6] A arte é apreendida pelos sentidos, mas também pela razão; é para fazer sentir, mas também para fazer pensar, é para acrescentar sentido em nossas vidas. Mas, sem a compreensão daquele que a contempla, a obra não se completa, não existe de fato, mesmo que seja concreta em sua materialidade. A arte é uma forma de desconfiar do mundo atual, de modificar a maneira de ver e interpretar a realidade, uma forma de “desbanalizar” o real e “ressensibilizar” o olhar. Esse livro, na verdade, é uma conversa, um dialogo sobre história e sobre filmes, em que ambos se “contaminam” reciprocamente. Não há nele pretensões acadêmicas ou literárias, mas uma pretensão maior: transformar o leitor em um apaixonado por História e Cinema. E pretende ser um guia da produção cinematográfica mais significativa que tem como temática a história, obras que utilizaram o saber histórico e, ao mesmo tempo, acrescentaram mais elementos a esse saber. Não deixe essa obra incompleta, na medida do possível, assista aos filmes indicados. Boa leitura no presente, bons filmes no futuro. [1] FONTANA, Josep. História: análise do passado e projeto social. Bauru, SP: Edusc, 1998. p. 17. [2] VERÍSSIMO, Luis Fernando. Fantástico. Zero Hora, 29.08.1989. s/p. [3] ZÉ, Tom. Tropicalista lenta luta. São Paulo: Publifolha, 2003. p. 20. [4] MANGUEL, Alberto. Lendo Imagens. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 30. [5] MORAES, Frederico. Arte é o que eu e você chamamos de arte: 801 definições sobre arte e o sistema da arte. Rio de Janeiro: Record, 1998. p. 41 e 42. [6] NAPOLITANO, Marcos. Como Usar o Cinema na Sala de Aula. São Paulo: Contexto, 2004. 2 ed. p. 11 e 12.